Julian Assange O hacker criador do WikiLeaks

Posted: 20 de Junho de 2011 in internacional

Criador do WikiLeaks é filho de mãe rebelde e trocou de escola 37 vezes. Site surgiu após decepção com ‘conformismo’ do meio acadêmico

Julian Assange mantém discrição sobre a própria biografia. Quase tudo o que se sabe sobre ele foi colhido em raríssimas entrevistas. Ele teve uma formação familiar e educacional incomum. Devido à rebeldia permanente da mãe (aos 17 anos, ela queimou os livros escolares e fugiu de casa em uma moto), viveu uma infância e uma adolescência itinerantes, que o fizeram trocar 37 vezes de escola e aprender a ser seu próprio professor. Daí para os computadores foi um pulo. E deles para tornar-se um hacker, um clique. Jovem, compôs um time que se dedicava a burlar as regras e entrar em sistemas de empresas e governos. Acabou preso e, segundo relato próprio, poderia ter sido condenado a dez anos de prisão. O juiz entendeu que suas ações não passavam de bisbilhotice e que não havia causado prejuízos.

Assange casou e se separou. Durante o litígio pela guarda do filho, ele se deparou, na Austrália, com um sistema legal que o impedia de obter informações sobre o próprio processo. Passou a gravar secretamente as sessões de custódia, o que era proibido, e a divulgar as informações. Chegou a um acordo com ex, mas, segundo a mãe do próprio Assange, o stress proveniente do processo deixou prematuramente brancos seus cabelos castanhos. A ideia do WikiLeaks surgiu depois de outra trombada com as instituições. Após um retorno frustrado à universidade, saiu atirando para todos os lados, dizendo que aquela instituição estava forrada de conformistas.

Em 2006, criou o WikiLeaks – justaposição do termo wiki, uma referência à enciclopédia colaborativa da internet Wikipédia e à própria ideia de cooperação digital, e leak, vazar, em inglês. Começou com poucos colaboradores, especialistas em computação como ele. Atualmente, o sistema é controlado por menos de dez voluntários, mas conta com cerca de mil colaboradores pelo mundo. Com servidores espalhados pelo planeta, para evitar ações legais e contra-ataques hackers, recebe documentos de qualquer usuário: basta visitar o endereço e fazer o up-load dos arquivos. O anonimato é um pilar do WikiLeaks: quem submete uma informação não precisa se identificar. Um poderoso sistema de criptografia impede que sejam registrados identidades, local e data do arquivamento. De posse dos dados, começa um trabalho de verificação da autenticidade dos documentos, com ajuda de colaboradores. Negando a ideia dos wikis, é a cúpula do site que escolhe o que vai para o ar – nada de colaboração aqui. O australiano se gaba de jamais ter publicado um documento falso. Entre seus feitos estão a divulgação do manual militar de operação da prisão americana de Guantánamo, em Cuba, e as regras secretas de um partido racista britânico.

Exposição de informantes – No episódio do vazamento do Afeganistão, a grande acusação contra o site é a falta de zelo na publicação de dados considerados sensíveis. New York Times, Guardian e Der Spiegel tomaram o cuidado de suprimir dos documentos quaisquer referências que pudessem revelar a identidade de informantes das tropas aliadas, colocando a vida dessas pessoas em risco. Segundo o Times, o WikiLeaks não teve o mesmo cuidado. Por isso, oficiais americanos bradam que o WikiLeaks tem sangue nas mãos. Confrontando com o problema, Assange retrucou: “Se cometemos esse erro, é claro que é algo a ser analisado seriamente”.

O presidente Barack Obama, como era esperado, censurou o conjunto da obra. “As informações poderiam colocar em risco indivíduos e operações”. Mas tratou de minimizar o conteúdo do vazamento: “Esses documentos não revelam nada que já não tenhamos informado ao público sobre o Afeganistão”, disse. De quebra, lembrou que a culpa por eventuais erros que constem dos registros militares pesam sobre a cabeça de seu antecessor, George W. Bush. As autoridades investigam a origem do vazamento, e as suspeitas parecem recair sobre um analista de inteligência americano chamado Bradley Manning, de 22 anos. Ele teria copiado os dados de servidores de segurança dos EUA e os gravado em CDs etiquetados com o nome de Lady Gaga. Ao que tudo indica, essa informação não foi vazada pelo WikiLeaks, mas pelo próprio Manning.

O primeiro impulso de alguns analistas foi comparar o episódio a outro grande vazamento americano, conhecido como Pentagon Papers, ocorrido em 1971. Naquele caso, o Times iniciou a publicação seriada de um grande relatório produzido pelo próprio governo sobre as ações políticas e militares do país na Ásia – o foco era o Vietnã. Os textos mostraram, por exemplo, que a administração Lyndon Johnson mentira seguidamente acerca dos interesses e ações americanos no conflito. Richard Nixon, então no poder, conseguiu barrar a publicação na Justiça, sob a alegação de que o vazamento colocava em risco a segurança nacional. O caso foi levado para a Suprema Corte, que sentenciou: “Só uma imprensa livre pode efetivamente expor as fraudes em um governo”. A publicação prosseguiu.

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