“A ‘Operação Líbia’ faz parte de uma agenda militar mais vasta no Médio Oriente e Ásia Central, que consiste em ganhar controle sobre mais de 60% das reservas mundiais de petróleo e gás natural

Posted: 28 de Agosto de 2011 in internacional, Política e finanças

Na imprensa mundial, a queda de Kadafi também parece próxima. Os “rebeldes” – a mídia evita realçar os bombardeios da Otan – já teriam ocupado parte de Trípoli. Barack Obama, o embusteiro que prometeu reduzir a ação belicista dos EUA, encurtou suas férias para comemorar o desfecho do ataque. “O regime de Kadafi está acabado e o futuro da Líbia pertence ao povo”. Que povo? Capitalistas estão excitados Na Europa em frangalhos, o francês Nicolas Sarkozy e o britânico David Cameron anunciam uma reunião em Paris para discutir a agenda da “reconstrução” do país devastado. Cerca de 20 bilhões de euros do governo líbio, congelados em bancos da Inglaterra e Alemanha, seriam liberados para as obras, que teriam a participação das poderosas empreiteiras francesas e britânicas. O mundo capitalista em crise está excitado. As bolsas de valores dos EUA e da Europa subiram, com seus pregões sendo puxados pelas ações das empresas de petróleo e gás. Segundo o Estadão, o clima de entusiasmo também atiça os rentistas brasileiros. “Os investidores estão otimistas quanto à possibilidade do fim dos conflitos da Líbia, que interromperam as exportações de petróleo”. As reviravoltas de Kadafi Como aponta Saul Leblon, da Carta Maior, o mundo capitalista pouco se importa com os 1.700 líbios mortos nas primeiras horas de combate em Trípoli. A tal “intervenção humanitária” da Otan, repetida milhões de vezes pela mídia, é conversa para enganar os trouxas. O que está em jogo na Líbia são suas riquezas, principalmente o petróleo. Kadafi virou um estorvo. Por isso, ele deve cair! Kadafi já foi considerado vilão, aliado do bloco soviético e inimigo do “livre mercado” e da “democracia liberal” – principalmente quando estatizou o petróleo do país. Depois, acuado com o fim da URSS, ele renegou o seu passado nacionalista, virou amigo das potências imperialistas, tirou fotos com os “líderes ocidentais” e assinou estranhos contratos com as multinacionais. “Rebeldes” sem povo A recente revolta no mundo árabe, que derrubou vários carrascos aliados das nações imperialistas – que nunca foram rotulados de ditadores pela mídia colonizada – mudou a geopolítica da região e abalou os interesses das corporações. Era preciso derrubar, também, Kadafi. Afinal, ele nunca foi visto com bons olhos pela burguesia internacional. Mas, diferentemente das outras nações árabes, onde multidões ocuparam as ruas na luta por democracia, na Líbia não ocorreram protestos massivos. A única forma de derrubar Kadafi, o vilão que virou amigo e, depois, virou novamente ditador, era fomentar os “rebeldes”, armá-los e, principalmente, ajudá-los com os bombardeios da Otan. Do contrário, os “rebeldes” seriam derrotados. O petróleo é o “troféu” das guerras Na tragédia da Líbia, não há santos. O que está em jogo, é bom enfatizar, é o petróleo. Como apontou Michel Chossudovsky, num excelente estudo sobre o país, “a Líbia está entre as maiores economias petrolíferas do mundo, com aproximadamente 3,5% das reservas globais de petróleo, mais do dobro daquelas dos EUA… O petróleo é o ‘troféu’ das guerras conduzidas pelos EUA-Otan”. “A ‘Operação Líbia’ faz parte de uma agenda militar mais vasta no Médio Oriente e Ásia Central, que consiste em ganhar controle sobre mais de 60% das reservas mundiais de petróleo e gás natural, incluindo as rotas de oleodutos e gasodutos”. Com 46,5 mil milhões de barris de reservas provadas (dez vezes as do Egito), a Líbia é a maior economia petrolífera do continente africano. Privatizar a indústria petrolífera Para Chossudovsky, a “ação humanitária” da Otan na Líbia serve “aos mesmos interesses corporativos” da invasão do Iraque, em 2003. “O objetivo é tomar posse das reservas de petróleo, desestatizar a National Oil Corporation (NOC) e, finalmente, privatizar a indústria petrolífera do país, transferindo o controle e a propriedade da riqueza petrolífera para mãos estrangeiras”. A estatal NOC está classificada entre as 25 maiores 100 companhias de petróleo do mundo. “O petróleo líbio é uma mina de ouro para os gigantes petrolíferos anglo-americanos. Embora o valor de mercado do petróleo bruto esteja atualmente pouco acima dos 100 dólares por barril, o custo do petróleo líbio é extremamente baixo”. China e os objetivos geopolíticos Além disto, a operação militar da Otan tem objetivos geopolíticos que pouco aparecem nos noticiários da mídia imperial. “Onze por cento das exportações de petróleo líbias são canalizadas para a China… A presença chinesa na África do Norte é considerada por Washington como uma intrusão… A campanha militar contra a Líbia pretende excluir a China desta região”. Estas razões é que explicam a violência dos bombardeios da aliança militar dos países capitalistas – a Otan. Como alerta o escritor Michael Collon, o resto é pura manipulação midiática. “O problema é eles falam em ‘guerra humanitária’ e que gente de esquerda se deixa enganar. Seria melhor que lessem o que pensam os verdadeiros líderes dos EUA ao invés de olharem e assistirem a TV?”. A “ingenuidade” dos cúmplices “Escutem, a propósito dos bombardeios contra o Iraque, o célebre Alan Greenspan, durante muito tempo diretor da Reserva Federal dos EUA. Ele escreveu em suas memórias: ‘Sinto-me triste quando vejo que é politicamente incorreto reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque foi exclusivamente pelo petróleo’”. Collon critica a “ingenuidade” de certos setores da esquerda, que não aprenderam “nada sobre as falsidades humanitárias transmitidas pela mídia nas guerras precedentes”. E cita o discurso de Obama para justificar os ataques à Líbia: “Conscientes dos riscos e das despesas da atividade militar, somos reticentes ao empregar a força para resolver os numerosos desafios do mundo. Mas quando os nossos interesses e valores estão em jogo, temos a responsabilidade de agir. Vistos os custos e riscos da intervenção, temos que calcular nossos interesses ante a necessidade de uma ação. A América tem um grande interesse estratégico em impedir que Kadafi derrote a oposição’”. por Altamiro Borges (blog do miro) MAS QUEM É KADAFI? OS SONHOS DE KADAFI O que tem em comum a doação de 2.500 sacos de arroz aos muçulmanos pobres da Libéria, a construção de uma mesquita de 15 mil lugares em Serrekunda, em Gâmbia, a compra de uma indústria de sucos em Kampala e outra de biscoitos em Nairobi, a colocação da pedra fundamental de um centro islâmico que comporta uma escola básica e um ambulatório na região de Masindi, em Uganda? Obras tão diferentes entre si, mas todas patrocinadas pela World Islamic Call Society (Wics), o “braço” religioso do sonho hegemônico sobre a África de Muammar Kadafi, o ditador da Líbia. Criada em 1972, no primeiro Congresso Geral do Apelo Islâmico, patrocinado por Kadafi, a Wics tem por objetivo a da’wa, ou seja, o anúncio islâmico ao mundo, unindo atividades religiosas e ações humanitárias, econômicas e educativas para alcançar essa finalidade. Que o visionário coronel ambicione tornar-se o presidente de uma espécie de “Estados Unidos Africanos” não é mistério para ninguém. De fato, Kadafi não perde nenhuma oportunidade para evocar a artificialidade das fronteiras entre os países africanos e sua origem colonialista, convidando abertamente ao seu desrespeito e, desde o Vértice da Organização para a Unidade da África (OUA) em Sirte, Líbia, em 1999, persegue formalmente um sonho de unificação política do continente. Nos trinta anos de sua existência, a Wics já distribuiu milhões de cópias do Alcorão, financiou a construção de dezenas de mesquitas e centros islâmicos (entre as quais as recentes e gigantescas de Maiduguri e Kano na Nigéria, e a construção da mesquita nacional de Kampala). Formou 2.500 estudantes de sessenta nacionalidades diferentes, na sua faculdade da da’wa islâmica, com sede em Trípoli, Damasco, Beirute e N’Djamena. Forneceu 1.500 professores de língua árabe e estudos islâmicos a mesquitas, escolas corânicas e outros centros, em países como Mali, Níger, Burkina Fasso, Chade, Senegal e outros. Financiou cursos para professores de árabe e catequese corânica, em tantos outros lugares. A Organização se ocupa de atividades sociais, como organizar comboios de ajuda com remédios, roupas, alimentos a populações vítimas de catástrofes naturais ou guerras, em cerca de trinta países africanos e fora do continente. Construiu também hospitais e ambulatórios no Benin, Uganda, Bangladesh e Filipinas, e mantém, com muitas bolsas de estudos, estudantes nas faculdades de medicina, engenharia e economia, nas universidades líbias, estritamente reservadas para jovens muçulmanos africanos e asiáticos. Desde 1995, a faculdade da da’wa islâmica financia também cursos profissionalizantes para seus estudantes. Colabora, notavelmente, com a Unesco, em dezenas de seminários, simpósios científicos e está financiando e supervisionando a grande Enciclopédia Islâmica da Unesco, além de um caríssimo estudo sobre as reservas hídricas na faixa subsaariana. As verdadeiras intenções do coronel Muammar Kadafi Todas essas numerosas iniciativas humanitárias, científicas e de promoção humana não devem, porém, enganar. A verdadeira intenção da Wics é a islamização e arabização dos países africanos. A quinta Conferência geral da Wics confirmou que a da’wa persegue as finalidades de “difundir o árabe, língua do glorioso Alcorão, pedindo a todos os Estados islâmicos que o adotem como língua oficial em todos os níveis formativos; fazer pressão sobre os Estados islâmicos para que adotem o sagrado Alcorão como fonte do direito e modifiquem as leis existentes, até que estejam de acordo com os princípios do islã”. Na Líbia, já vigora a sharia, mas não são aplicadas as penas corporais como em outros países islâmicos, mais fundamentalistas. O proselitismo agressivo da Wics é facilmente descoberto em todas essas atividades. A Associação é financiada por doações privadas e por um fundo para a Jihad, um imposto introduzido por Kadafi, logo após a tomada do poder na Líbia, e que, inicialmente, financiava exclusivamente a luta dos palestinos contra Israel. A maior parte dessas ajudas e a totalidade das bolsas de estudo são concedidas somente aos muçulmanos, sobretudo aos que acabaram de se converter. Cursos de formação profissional foram reservados para os neoconvertidos na Tailândia, Chade, Sudão meridional (Kadafi financia a guerra de Cartum contra os povos animistas e cristãos do sul do Sudão), Mali, Gana, Nigéria, Uganda, Benin e Gâmbia. A WICS organizou também encontros e diálogos com o Pontifício Conselho para o diálogo inter-religioso e outras entidades cristãs, mas, desde sempre, considera o cristianismo como um produto do colonialismo e, portanto, estranho à realidade africana. Na famosa oração pública de primeiro de maio de 1998, em N’Djamena, diante de nove chefes de Estados africanos e mais de 100 mil pessoas, entre as quais 2.307 homens e mulheres convertidos ao islã pela WICS, o líder líbio descreveu o calendário gregoriano como fundado sobre a idolatria e mandou aos cristãos a seguinte mensagem: “A aceitação do islã é um progresso porque significa abraçar o sigilo de todas as revelações divinas. Quando, portanto, um cristão abraça o islã, ele não muda de religião, mas dá um passo adiante em lugar de dar um atrás”. E a WICS propõe como modelo da da’wa as grandes expedições africanas do líder: “As viagens do irmão Muammar Kadafi, durante as quais se realizaram orações com milhões de participantes muçulmanos, representam as grandes atividades da da’wa. Tais viagens e orações ofereceram uma oportunidade para a volta de milhões de pessoas ao islã”. Grande Jamahiriya Árabe Popular da Líbia Capital: Trípoli Superfície: 1.775.500 km2 População: 5,6 milhões (2002): árabes líbios: 97%; berberes africanos e turcos: 3% Governo: ditadura militar, desde 1969, com o coronel Kadafi O país é rico em petróleo e gás natural Língua: árabe Religião: islâmica: 97%; outras 3% Mortalidade infantil: 28% (1995 – 2000) Analfabetismo: 20,2% (2000) uammar Kadafi tomou o poder com um golpe de estado em 1969, exilando o rei Idris I . Com a descoberta de grandes reservas de petróleo, o país tornou-se importante no cenário internacional. A tradição islâmica, a personalidade do ditador e o nacionalismo extremado formaram a nova ideologia do Estado líbio. Após a expulsão dos estrangeiros e desapropriação de seus bens, a Líbia de Kadafi patrocinou atos terroristas em várias partes do mundo, tanto que, nos anos oitenta, foi submetida a sanções internacionais. Atualmente, a situação está se normalizando. Em 1998, Kadafi sobreviveu a um atentado planejado pelo grupo extremista líbio do Movimento dos Mártires Islâmicos. Fonte : revista mundo e visão

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