Albinos de Tanzânia e Burundi pedem proteção contra assassinatos em rituais

Posted: 3 de Setembro de 2011 in Luta e protesto, Sociedade


Marcada como um “fantasma” por conta de sua pele branca, Mariam Emmanuel foi perseguida em sua aldeia africana, num canto remoto da Tanzânia, por uma turba sedenta de sangue.

Exausta e aterrorizada, cinco anos de idade, a menina cansou e caiu no final de um beco. Ela gemeu e se encolheu, enquanto os adultos a rodeavam e afiavam suas facas e facões. Então eles começaram a trabalhar, a despedaçá-la e a dividir seus restos entre si.

“Mariam não teve o benefício de estar inconsciente antes de morrer”, disse um investigador chocado. “Ela foi morta, como um animal, por homens adultos, que não mostraram nenhuma compaixão por outro ser humano” – O crime de Mariam? Ela era uma albina, um dos mais de 17.000 negros africanos que sofrem de uma condição genética rara que faz com que sua pele seja branca e seus cabelos ruivos ou louros.

E em um continente onde milhões de pessoas acreditam em magia negra ou “muti”, seus órgãos e sangue valem muito mais que suas vidas.

Durante décadas, os albinos da África – conhecidos como “tribo de fantasmas”, “zeros” e “invisíveis” – sofrem um tratamento terrível nas mãos de seus próprios vizinhos e são assassinados por suas partes do corpo que, se crê, trazem boa fortuna e cura todos os tipos de males. Em muitos países africanos – mas é mais comum na Tanzânia – albinos são assassinados na rua. Seus restos são usados em macabras poções humanas pelos curandeiros tradicionais para tratar os doentes.

Acreditando que irá trazer-lhes boa sorte e grandes capturas, os pescadores nas margens do Lago Vitória albino tecem suas redes com cabelos de albinos. Os ossos são triturados e enterrados na terra pelos mineiros, que acreditam que vão ser transformados em diamantes. Com os órgãos genitais são feitos tratamentos para reforçar a potência sexual.

Apesar da aparição cada vez mais moderna de muitos povoados e cidades africanas, onde quase todo mundo carrega um telefone celular, muitas pessoas instruídas ainda acreditam na magia e na medicina negra tradicional. Eles acreditam que tratamentos feitos com partes dos corpos dos albinos são especialmente potentes, inclusive, os ricos habitantes das cidades também acreditam.

De fato, os olhos, o sangue e os órgãos dos albinos agora podem trazer milhares de libras – somas inimagináveis neste canto da África, onde milhões de pessoas vivem com menos de £ 2 por dia e onde este comércio escandaloso é o mais comum.

As somas colossais envolvidas neste negócio geraram uma nova raça de assassinos independentes, muitas vezes protegidos pela polícia, que vivem da colheita das partes dos corpos de albinos que geram lucros fabulosos.

Alguns governos estão tentando acabar com esse negócio vil. Esta semana, um tribunal da Tanzânia – onde ocorreram 90 assassinatos nos últimos dois anos – sentenciou a pena de morte a um grupo de homens que havia abatido e desmembrado um menino albino – foi a primeira decisão de pena de morte como punição para assassinos de albinos.

O tribunal, no noroeste do Distrito de Shinyanga, perto do Lago Victoria, ordenou a forca para três homens que participaram no massacre de Matatizo Dunia, 14-anos de idade, albino. Ele foi tirado de sua casa na calada da noite – e cortado em pedaços.

Um dos acusados foi surpreendido com a perna do menino. O restante do cadáver foi encontrado escondido nos arbustos. Os homens culpados admitiram que pretendiam vender a “carne branca” para os feiticeiros.

Acredita-se que essa quadrilha tenha sido responsável pela caça de albinos em toda a região e pela comercialização de seus órgãos em todo este vasto continente.

Muitos estão se sentindo aliviados porque agora eles vão enfrentar a forca. – “Eles mataram um albino inocente e indefeso e também merecem morrer”, disse Grace Wabanu, um estudante universitário albino que assistiu a sentença dada pela Corte.

“Espero que esta sentença sirva como um elemento dissuasivo para as pessoas que têm a intenção de matar albinos na crença de que partes do seu corpo irão torná-los ricos.”

Por razões desconhecidas, acredita-se que na Tanzânia esteja a maior população de albinos da África – uma condição genética causada pela falta de pigmentação da pele – tem uma incidência sete vezes maior que no resto do mundo. Embora essas pessoas tenham maiores chances, que a média, de adquirir o câncer de pele e sofrer de cegueira, os albinos podem viver uma vida plena e feliz – e ter filhos saudáveis.

Mas aqueles que nascem com a pele branca em partes da África, muitas vezes pagam um preço social terrível por sua condição. Tal é o estigma, que as crianças albinas costumavam ser mortas ao nascer.

Nos últimos tempos, as crianças têm sido poupadas por seus pais -, mas geralmente são mantidas dentro de casa, escondidas por suas famílias para protegê-las dos caçadores humanos e dos abusos nas ruas.

Rechaçadas da vida normal do povo e excluídas de muitos postos de trabalho, esses “fantasmas brancos”, também acredita-se, podem proporcionar a cura para a AIDS, o flagelo deste continente.

De fato, muitos africanos acreditam que ter sexo com um albino pode curá-los da doença. Isto levou a inúmeros casos de estupro contra a mulheres albinas, deixando-as HIV positivas, também.

A pele branca dos albinos é também muito procurada. Houve dezenas de casos de albinos na Tanzânia e no Quênia que foram assassinados e tiveram suas peles tiradas. Investigadores encontraram peles de albinos da Tanzânia sendo vendidas em Malawi, Moçambique, Zâmbia e África do Sul.

Não admira, então, que os familiares dos albinos mortos tenham cuidado com os arranjos do enterro, que são frequentemente celebrados em particular e em locais secretos para evitar que ladrões de sepulturas desenterrem e vendam partes do corpo de seus entes queridos.

O avô de Mariam, Mabula, disse esta semana como havia enterrado o que restou da menina dentro de sua cabana de barro. Ele levantou a cama, onde os restos de sua neta estavam escondidos, debaixo de um monte de terra, e agora dorme em cima do túmulo para garantir que os ladrões não voltem para pegar os ossos de Mariam.

Em meio a um protesto internacional por esta recente onda de assassinatos de albinos, o presidente tanzaniano, Jakaya Kikwete, proibiu todos os feiticeiros de operar no país.

O presidente também ordenou a seus agentes para reprimir o comércio. Até agora, mais de 90 pessoas foram presas por seu envolvimento no comércio macabro, incluindo quatro policiais corruptos. Quinze outros prováveis assassinos de albinos também irão em breve a julgamento. Os grupos de pressão que lutam para acabar com a morte de albinos comemoraram as penas de morte proferidas contra os três homens que abateram Matatizo e cortaram seu corpo para a “medicina”.

Na verdade, Ernest Kimaya, o presidente da Sociedade de Albinos da Tanzânia pediu que os homens culpados sejam condenados à morte em público – como uma advertência para os demais que tenham a intenção de vender partes dos corpos de albinos.

“Esperamos que [o presidente] autorize a pena o mais breve,” disse. “E que essas execuções sejam realizadas publicamente para mostrar que o governo é sério nesta guerra contra os assassinos de albinos.

Os esforços para apoiar os albinos também estão sendo feitos localmente. A escola foi transformada em um santuário para os albinos, perto da aldeia onde Mariam morreu. Seu irmão mais velho, de nove anos de idade, também um albino, se matriculou lá. Mas as crianças no santuário ainda não estão completamente a salvo dos predadores.

“Temos que colocar uma cerca e estamos tratando de reforçar a segurança com patrulhas noturnas”, disse odiretor, John Loudmoya. “Mas ainda temos que estar atentos”.

De fato, é improvável que o enforcamento dos assassinos dos albinos ponha um fim neste comércio criminoso – por uma razão simples: há muito dinheiro em jogo.

E enquanto isto continuar sendo o motivo, essas pessoas vão continuar sofrendo a violência mais atroz nas mãos dessas turbas gananciosas e sedentas de sangue. Na foto: Crianças na escola primária, Misungwi, Mwanza

Fonte: dailymail.com.uk

Mais de 50 albinos foram mortos em rituais ligados à bruxaria no último ano na Tanzânia e Burundi, onde as autoridades começaram a tomar medidas para pôr fim a este massacre, embora a minoria afetada as considere insuficientes e, algumas vezes, ridículas.

O presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete, decidiu este mês instalar urnas por todo o país para que os cidadãos, de forma voluntária e anônima, possam “votar” em seus “suspeitos” de matar albinos, para, uma vez feita uma apuração, deter “os mais votados”.

A secretária-geral da Fundação de Albinos da Tanzânia, Ziada Nsembo, disse que não vê com bons olhos a medida: “É ridícula. Não oferece garantias e servirá apenas para despertar a animosidade entre os moradores”.

“Na Tanzânia, já foram detidos 92 supostos assassinos de albinos, mas eles ainda não foram a julgamento. Isso não serve para resolver o problema”, disse Nsembo.

No Burundi, a polícia deteve em 16 de março 10 pessoas que foram acusadas de matar albinos para comercializar seus restos na Tanzânia, onde são usados em rituais de bruxaria.

Apesar de os governos dos dois países trocarem elogios nos últimos meses e condenarem de forma pública os ataques contra os albinos, Ziada não acredita que o Burundi esteja fazendo “o suficiente”.

“Não parece que eles levam estes crimes a sério”, confessou, alarmada pelo aumento de assassinatos dos “brancos malditos”, como são chamados por seus “carrascos” na Tanzânia e no Burundi.

Pelo menos 10 albinos foram assassinados e mutilados nos últimos seis meses no Burundi e mais de quarenta nos últimos 12 meses na Tanzânia, que tem uma população registrada de 7.124 albinos, “embora este não sejam números reais, já que muitos vivem escondidos pelo medo”, apontou.

Insatisfeita com a resposta das autoridades, Ziada iniciou sua própria luta há quase 30 anos, em 1980, quando decidiu fazer parte da Fundação Tanzaniana de Defesa dos Albinos, que, como ela, não sofrem apenas com os efeitos do sol do trópico em sua pele, mas também têm de lutar contra preconceitos e superstições de uma população “ignorante e faminta”.

Os feiticeiros das áreas rurais da Tanzânia, especialmente as regiões próximas aos Grandes Lagos do nordeste do país, fazem os aldeões acreditar que “ficarão ricos se matarem um albino, amputarem suas extremidades, arrancarem sua pele e misturarem tudo em uma poção”.

“Os bruxos pedem grandes quantidades de dinheiro, entre 20 e 30 milhões de xelins tanzanianos (de US$ 16 mil a US$ 24 mil) para preparar a bebida com os corpos dos albinos”, acrescentou Ziada.

Apenas nas cidades as condições de vida dos albinos destes países melhoram, pois nelas podem levar uma vida quase como a dos demais: “Em Dar-es-Salam, onde cresci, pude levar uma vida mais ou menos normal, sem me sentir-me atacada”, disse Ziada.

“O maior problema está nas regiões mais remotas, onde as crianças albinas nem sequer podem ir ao colégio pelo medo de serem sequestradas no caminho”, afirmou.

Fora do Hospital Ocean, de Dar-es-Salam, capital financeira da Tanzânia, onde Ziada tem um pequeno escritório no qual oferece ajuda a outros com o mesmo problema, cinco albinos descansam na sombra e os olhos fechados.

“Nossa visão é muito ruim. O sol danifica nossa pele e as córneas dos olhos. Precisamos de apoio para comprar protetores solares e óculos escuros”, disse Ziada.

“Mas o governo quase não colabora, com uma ínfima subvenção. Tudo que recebemos é de doadores ou de ONGs”, denunciou.

Uma das últimas contribuições surgiu de um grupo de homens de negócios locais, que doou à Fundação de Albinos da Tanzânia 350 telefones celulares para que os albinos possam entrar em contato com a polícia de forma automática caso sejam atacados ataque.

“Esta foi uma bela contribuição, mas não deixa de ser um remendo. Para que o problema desapareça, é preciso investir na educação e melhorar as condições econômicas dos tanzanianos. É a pobreza que provoca estas atrocidades”, conclui Ziada.

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